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Índice

1. Introdução

2. Revendo as velhas
metáforas

2.1 Organizações como
máquinas

2.2 Organizações como
organismos, cérebros e culturas

2.3 Organizações como
sistemas autopoiéticos e hologramas

3. Qualidade total e
outros modismos

3.1.Característicos de Direção

3.2.Característicos de Ação

3.3.Característicos de Sentido

4. Novas filosofias e
velhas metáforas

4.1. Jacques Lacan

4.2. David Bohm

4.3 Guatarri

5. Novas idéias

6. Bibliografia

"ORGANIZAÇÕES, VELHAS METÁFORAS E NOVAS IDÉIAS"

4.1 Jacques Lacan (continuação)

Quando tratamos de organizações precisamos entender que o papel desse adulto mediador variará de cultura para cultura. Em sociedades paternalistas, caberá ao estado o parto e a individuação da organização. Nas empresas familiares, será o arcano do grupo familiar quem imporá determinada imagem à organização. Em outras palavras, uma abordagem antropotecnológica será necessária para aclimatar uma imagem que se pretenda a uma realidade cultural onde se deseja inserir a mesma.

Como podemos reparar, trata-se de uma história a três: a imagem refletida, a organização em questão e o olhar de um terceiro. Isto nos diz, simplesmente, que uma organização não pode outorgar-se a si mesmo a identificação ou, se preferirmos, a "identidade" mas, ao contrário, precisa de um semelhante que a reconheça como sendo Um. O terceiro é quem a prende à imagem. Ela está dentro do campo de desejo do outro já que se a organização (o estado, o patriarca) adulto olha "aí" é porque "aí" tem alguma coisa que funciona ou ocupa o lugar do objeto de seu desejo (objeto a). Neste sentido, a imagem não faz outra coisa que recobrir o lugar vazio do objeto (chama-se i (a)).

Esta imagem é uma forma, produto de um recorte que o outro realiza. O estado (enquanto cumprindo o papel do outro) recorta com o gume de suas palavras, suas crenças, suas tradições de fracassos e sucessos, sobre um horizonte de indeterminação, a organização, filha de seus desejos. Pretendendo atributos a esse "filhote de organização", como se lhe colocasse condecorações por conta de futuras vitórias, o estado não faz outra coisa que dar-lhe a forma de um Eu. Em outras palavras, o `outro' vai modelando imaginariamente um sujeito.

O nome próprio, atribuído ao sujeito, condensará em si a soma dos atributos: ele passa a funcionar como uma verdadeira síntese do molde imaginário do sujeito que resulta ser 'Eu. O nome próprio cola-se de tal forma ao sujeito que se converte em "seu" significante por excelência. Significante que o sujeita a uma linhagem, a uma estirpe, a uma história de desejos ou, se preferirmos, a uma corrente de desejos historicizados. Assim, o sujeito preferindo seu nome se apresentará ante os olhos dos outros como sendo Um, a síntese de seus atributos imaginários. Os outros o reconhecerão em sua unidade sob a forma de um Você. Ao nomeá-lo estarão lhe dizendo "você é isso", assim como outrora o `outro' (estado, patriarca, empresa modelo, etc.) lhe disse frente à superfície polida do espelho ao reconhecê-lo como sendo Um.

A operação de reconhecimento que suporta (sustenta) a identificação resulta possível porque o `outro' que executa constituiu-se, por sua vez, em relação a um terceiro que o sujeitou às estruturas de uma língua particular (e às de uma formação histórico-social particular). O `outro' só mediatiza o reconhecimento que, em última instância, emana de uma rede de relações simbólicas que atribuem tanto aos lugares do "reconhecido" quando ao daquele que veicula a operação. Essa rede, como já dissemos, chama-se Outro. O reconhecimento sempre emana do Outro, o outro apenas suporta uma função - a função do espelho. O Outro é quem detém "a eficácia simbólica"; ele, de certa forma, adjudica ao outro, seu representante, o pode necessário para efetuar o reconhecimento (Lacan, 1949).

Pois bem, quando a organização assume a imagem refletida, a imago estruturante, boa parte da experiência fica de fora, ou seja, não pode ser representada na sua totalidade já que a imagem especular somente representa uma parte. Com efeito, a imagem da organização, no limite, não é a organização: em outros termos, o representante não recobre totalmente o representado. A superfície do espelho é uma espécie de faca de dois gumes: unifica mas também seciona um parte que fica de fora. Esta é, precisamente, sua função, sua dupla função.

Isso que está lá, no espelho, passa a representar a organização frente aos outros e, também, ante a si mesmo, mas sem chegar a ser síntese de seu "ser". A imagem, o Eu resultante da operação de identificação parece ser o "ser", entretanto não é. O Eu não pode senão ignorar aquilo que restou da operação de representação. Assim, a experiência especular outorga ao sujeito sua unidade mas também o submerge no desconhecimento de si mesmo. A identificação que tem lugar no interior da experiência do estádio do espelho forma um Eu mas, simultaneamente, instaura uma divisão no seio mesmo do "indivíduo organização". Em suma, o Eu (moi) forma-se ao preço de renunciar a ser o Je. Em outras palavras, não há como evitar os conflitos dentro da organização. Uma organização onde não ocorrem conflitos, perdeu sua identidade, sua autopoiesis, morreu.

Colocada nestes termos, a experiência do estádio do espelho não ilustra outra coisa que a relação da organização com a estrutura da linguagem ou, se preferirmos, com a ordem do discurso. A linguagem provê um nome para a organização. A organização prende-se (cola-se) a esse elemento para salvar-se da dispersão, isto é, aliena-se num nome o que representa como sendo Um. Contudo nesta operação, a organização perde seu ser: o nome é o Eu, mas não é a organização. Assim, a produção de um resto resulta ser inevitável. É a linguagem, a que em seu próprio seio leva um gume cortante: a barra que separa significante e significado.

Dentro da psicanálise francesa, a ordem do significante goza de uma autonomia tal sobre o significado que ambas resultam ser irredutíveis entre si. Desta forma, a organização, como significado, efeito da operação de representação, nunca poderá ser representada pelo significante. Esta impossibilidade instala uma tensão entre o Eu e o ser do sujeito (Je).

A tensão instalada entre o representante e o (apenas) representado faz com que um significante junte-se a outro e depois a outro, dando lugar assim a uma corrente ou cadeia na tentativa de diminuir o defeito de representação; tentativa que, embora seja impossível subtrair-se dela, não deixa de ser inútil.

Trata-se de uma encruzilhada infame: é impossível não tentar a representação total, ao mesmo tempo que a própria operação de representação reabre (reintroduz) a distância que medeia entre o representado e o representante. Em síntese, no instante mesmo em que se está para recuperar o perdido no instante anterior, o "recuperado" volta a se perder. Paradoxo insolúvel, motor que condena as organizações a um eterno estado de mudança.

A função do corte que se articula na experiência do estádio do espelho implica pôr em (inter)jogo aquilo que Lacan chamou de três registros: real, simbólico e imaginário. O real é aquilo que não tem fissuras, não está marcado e portanto é pura indiferenciação impossível de ser apre(e)ndida. A ordem simbólica, graças a seus cortantes elementos constitutivos (os significantes), fura, recorta, o real. O registro do imaginário é o efeito dessa operação de recorte, de perfuração que o simbólico realiza sobre o real. O registro do imaginário é a objetivação do real; o real simbolizado.

Para Saussure "A língua é criada para o discurso". Lacan (Escritos, 1978, p. 225), nos diz que o mundo das palavras cria o mundo das coisas. "Para que o objeto simbólico, liberto de sua utilização se torne a palavra liberte do hic e nunc, a diferença não é da qualidade sonora de sua matéria, mas de seu ser evanescente, onde o símbolo encontra a permanência do conceito".

Matemas, Grafos e figuras topológicas são empregadas por Lacan numa matematização da abordagem Freudiana, numa releitura sui gêneris e tipicamente francesa, do assunto. Estender as conseqüências de seu trabalho para a Teoria Organizacional é tarefa que já vem sendo realizada por outros pesquisadores com perspectivas promissoras.

O discurso evidencia efeitos de fontes inconscientes. É a forma verbal e personalizada de elaborar vivências, idéias, sentimentos, valores, perspectivas de vida, relacionamentos humanos. O discurso vai se organizando como:

Identidade Elaboração recursiva que uma organização faz ao longo da vida (dimensão longitudinal)

Relacionamento Relações intersubjetivas que a organização vivencia

(dimensão latitudinal)

Significante Para Lacan é o que representa o sujeito frente a outro significante (o que é elaborado, o que não estava manifesto a princípio)

Figura 7 - Novas filosofias e velhas metáforas

 


Adaptação livre do site: www.nngroup.com
realizada por Renate de Oliveira