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Índice

1. Introdução

2. Revendo as velhas
metáforas

2.1 Organizações como
máquinas

2.2 Organizações como
organismos, cérebros e culturas

2.3 Organizações como
sistemas autopoiéticos e hologramas

3. Qualidade total e
outros modismos

3.1.Característicos de Direção

3.2.Característicos de Ação

3.3.Característicos de Sentido

4. Novas filosofias e
velhas metáforas

4.1. Jacques Lacan

4.2. David Bohm

4.3 Guatarri

5. Novas idéias

6. Bibliografia

"ORGANIZAÇÕES, VELHAS METÁFORAS E NOVAS IDÉIAS"

4.3 Guatarri

Guatarri (1990), propõe observarmos e agirmos no mundo seguindo uma ótica ecosófica, expressão cunhada pelo autor, cuja função seria a de articular os três registros ecológicos, a saber:

(i) o do meio ambiente:

Onde se deve relacionar, de forma ao mesmo tempo racional e subjetiva, as relações (ecosóficas) da natureza com o meio social (implicando no social, no político e no econômico).

(ii) o das relações sociais (ecosofia social):

Desenvolvendo práticas específicas que tendam a modificar os padrões, nos quais estamos inseridos, reinventando maneiras de ser no seio do casal, da família, do contexto urbano, do trabalho,... Através da reconstrução de conjuntos de modalidade do ser-em-grupo e pelas mutações existenciais na essência da subjetividade (no mundo das idéias).

(iii) o da subjetividade humana (ecosofia mental):

Vê a relação sujeito-corpo sobre um novo ângulo, onde dever-se-á reinventar novos antídotos para essa uniformização social (guiada pela mídia) - o consumismo, o conformismo da moda, as manipulações de opinião pela publicidade, etc.

Essa tríade tem como base as intensas mudanças técnico-científicas, cujas conseqüências constituem-se nos fenômenos de desequilíbrios ecológicos (que se não sanados poderão comprometer toda e qualquer forma de vida no planeta) e, paralelamente, numa evolução progressiva da deterioração dos modos de vida humanos (privado e coletivo).

"As redes de parentesco tendem a se reduzir ao mínimo, a vida doméstica vem sendo gangrenada pelo consumo da mídia, a vida conjugal e familiar se encontra freqüentemente "ossificada" por uma espécie de comportamento padronizado, as relações de vizinhança estão geralmente reduzidas a sua mais pobre expressão".

As conseqüências desse desequilíbrio ecosófico podem ser vistas concomitantemente:

a) no modo de vida (individual e coletivo):

Pela dicotomia entre o individual e o coletivo, com a perda gradativa dos laços afetivos, a não aceitação da subjetividade com sua exterioridade e as particularidades de cada ser humano, ou seja, pela não aceitação da diversidade;

b) nas formações políticas (instâncias executivas):

Pela preocupação exclusiva com os danos industriais apesar de se ter uma consciência parcial de que a problemática ecosófica é muito mais ampla e, de certa forma, irrestrita. Não há uma articulação ético-política (ecosofia) de nossos governantes e empresários.

c) no trabalho social:

Onde cada vez mais a força produtiva do homem vem sendo substituída pelo trabalho maquínico devido a evolução tecnológica, provocando o desemprego, a marginalidade opressiva, a solidão, a ociosidade, a angústia, a neurose.

Segundo o autor, vivemos nossas subjetividades segundo um padrão arcaísta, sendo nossas ações permeadas por este ranço. Trabalhamos seguindo as contingências unívocas de uma economia exclusivamente voltada para o lucro, baseada em relações de poder. Essa ambigüidade no trabalho social, que fala do homem mas o deixa em segundo plano em nome de uma abstração chamada competitividade, nos leva a compreender o trabalho sobre dois prismas:

o do império de um mercado mundial que lamina os sistemas particulares de valor e, que coloca num mesmo plano de equivalência os bens materiais, os culturais e as áreas naturais;

o que coloca o conjunto das relações sociais e das relações internacionais sob a direção das máquinas policiais e militares;

d) na economia de lucro, relação de poder e tutela econômica:

O sistema de produção na qual estamos inseridos, é denominado pelo autor de capitalista pós-industrial, Capitalismo Mundial Integrado (CMI). Este sistema tende a descentrar o poder das estruturas de produção de bens e de serviços para estruturas produtoras de signos, de sintaxe e de subjetividade, devido ao controle que exerce sobre a mídia, a publicidade. O CMI é hoje um bloco produtivo-econômico-subjetivo, que trabalha a partir da mais-valia visando o lucro, produzindo diferenças sócio-econômicas, onde a relação de poder está diretamente relacionada a tutela econômica. Seus instrumentos semióticos são classificados em:

- semiótica econômica (instrumento monetário, financeiro, contábil, de decisão,...);
- semiótica jurídica (título de propriedade, legislação e regulamentação diversas,...);
- semiótica técnico-científica (planos, diagramas, estudos, pesquisas,...);
- semiótica de subjetivação;

O autor conclui que a ecologia ambiental, tal como existe hoje, não faz senão iniciar e prefigurar a ecologia generalizada e que terá por finalidade descentrar radicalmente as lutas sociais e as maneiras de assumir a própria psique.

Segundo ele, pode-se ver méritos nos movimentos ecológicos atuais, porém a questão ecosófica global é muito mais ampla e deveria deixar de ser vinculada à imagem de uma pequena minoria de amantes da natureza ou de especialistas diplomados. Visto que ela põe em cheque as subjetividades e as formações do próprio poder capitalista.

É introjetado diariamente esse poder repressivo. O operário é submisso ao empresário. O estudante é reprimido pelo sistema tradicional de educação. Todos nós somos reprimidos, de alguma forma, pelo sistema social vigente. Até a natureza é "dominada" por essa teórica lei do mais forte, ficando a mercê do homem.

Os princípios comuns às três ecologias consistem, então, em territórios existenciais liberados das antinomias de princípio, ou seja, de domínios particulares, todas tem as suas especificidades, porém dependem umas das outras para a sua existência.

Em síntese, as três ecologias deveriam ser concebidas como sendo da alçada de uma disciplina comum ético-estética e, ao mesmo tempo, como distintas uma das outras do ponto de vista das práticas que as caracterizam.

Enfim, não há como alterarmos essa visão, arcaica e infantil, de ecologia ambiental, sem antes preconizarmos uma alteração em nosso próprio sistema de pensar e agir, ou seja, na ideologia social que nos permeia. Precisamos, primeiramente, compreender estas três ecologias para, desta forma, consolidarmos uma ponte entre elas, e assim, construirmos uma verdadeira ecologia global.


Adaptação livre do site: www.nngroup.com
realizada por Renate de Oliveira