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Índice

1. Introdução

2. Revendo as velhas
metáforas

2.1 Organizações como
máquinas

2.2 Organizações como
organismos, cérebros e culturas

2.3 Organizações como
sistemas autopoiéticos e hologramas

3. Qualidade total e
outros modismos

3.1.Característicos de Direção

3.2.Característicos de Ação

3.3.Característicos de Sentido

4. Novas filosofias e
velhas metáforas

4.1. Jacques Lacan

4.2. David Bohm

4.3 Guatarri

5. Novas idéias

6. Bibliografia

"ORGANIZAÇÕES, VELHAS METÁFORAS E NOVAS IDÉIAS"

4. Novas filosofias e velhas metáforas

4.1 Jacques Lacan

Jacques Lacan não se endereça diretamente à questão organizacional. Seus ensinamentos, no entanto, podem ser estendidos a esse `ser organização', enquanto organismo inteligente que busca, a todo custo, preservar sua autopoiésis.

Todo organismo nasce para a vida e, como costuma muito bem afirmar a maioria das psicologias (incluídas a psicogenética, cf. Piaget, 1974), ele não é mais do que um acúmulo de partes. Lá, "na origem", teríamos apenas pura indiferenciação, dados disseminados não organizados, um registro que Lacan chama de Real onde todas as organizações que existiram, existem, e vierem a existir coabitam numa realidade atemporal.

Figura 6 - Os Registros Lacanianos

Deve-se observar que um organismo só consegue constituir-se "como Um no interior do discurso desses outros que o designam" (Saal, Braustein, 1980). Os outros, o Outro - estrutura simbólica transindividual - fazem-no UM. Nesse sentido, o trabalho de Lacan se insere na metáfora cultural (Morgan, op. cit.).

O trabalho de Jacques Lacan de 1936, posteriormente rescrito em 1949, Le state du miroir comme formateur de la fonction du "Je" telle q'elle nous est révélée dans l'experience psychanalytique, pretende dar conta, precisamente, de como se constitui a unidade imaginária do Eu - Moi. Interpretando seu trabalho para o universo organizacional teríamos, num primeiro momento, a organização, recém criada, não possuindo nem identidade, nem espírito de corpo.

Num segundo momento, "descobre" a si própria no discurso do outro. A alegria que acompanha tal acontecimento marca a "transformação produzida no sujeito quando assume uma imagem" (Lacan, 1949). Trata-se da transformação de um corpo fragmentado (corps morcelé) numa totalidade unificada - representação do próprio corpo.

O dito estádio do espelho ressalta o papel estruturante da imagem, na medida em que organiza um corpo a partir de uma promessa de unidade. "A função do estádio do espelho se nos revela (...) como um caso particular do imago" (Lacan, 1949) que não é outra que a de produzir "efeitos formativos sobre o organismo" (Ibid). Este é um fato que a etologia já tem demonstrado suficientemente.

Lacan lembra, precisamente, que a maturação gonodal da pomba depende da visão da imagem de um congênere e que chegado o caso bastaria à pomba ver sua própria imagem refletida no espelho.

Como se daria tal processo no universo dos `seres-organização'? Unidade e fragmentação são as duas faces de uma mesma moeda já que "só pode haver partes em relação a algum todo, antes disso não há fragmentação mas dados dispersos não organizados: órgãos, excrementos, dores, gritos que não pertencem a ninguém" (Saal, op. cit.). Assim definido, o estádio do espelho aparece-nos como sendo "um drama cujo impulso interno se precipita da insuficiência à antecipação" (Lacan, op. cit.).

Pois bem, esta precipitação não se dá sem razão; no caso dos seres humanos é necessário alguma coisa a mais: a mediação do adulto. O fundamental não é tanto ver-se no espelho como o fato do adulto, que sustenta o bebê em pé, ratificar a este que essa imagem é justamente a sua própria. É o adulto quem lhe diz que essa gestalt que está lá e que é semelhante à dos outros é a sua, ou seja, que é assim como os outros o vêem ou que é isso ao qual os outros se referem quando falam dele entre si. Em outras palavras, o adulto é aquele que articula a promessa: sendo como esta imagem você será Um a mais entre seus semelhantes. Desta forma, cabe dizer que é o adulto quem o unifica na medida em que o reconhece como Um.

Continua 4.1. Jacques Lacan

 


Adaptação livre do site: www.nngroup.com
realizada por Renate de Oliveira