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Índice

Resumo

1. Introdução

2. Mediação Humana nos Sistemas de Inteligência Artificial

3. A Noção de Conceito

4. O Problema do Embasamento dos Símbolos

5. A Questão da Antecipação

6. Ambientes em Mutação

7. Teoria da Equilibração

7.1.Esquemas

7.2.Assimilação e Acomodação

7.3.Regulações

7.3.2 Diferenciação de Esquemas

8. Conclusões

9. Referências

"Agentes Autônomos e Teoria da Equilibração Cognitiva"

7. Teoria da Equilibração

Este trabalho buscou inspiração na teoria do psicólogo e epistemólogo suíço Jean Piaget para explicar os processos de construção de conhecimento em agentes autônomos. A teoria de Piaget, conhecida atualmente como Epistemologia Genética, tem sido muito aplicada na educação, pois os resultados de suas idéias para a aprendizagem são excelentes. Há porém um lado pouco conhecido da teoria de Piaget, desenvolvido em seus últimos anos de vida. Trata-se da Teoria da Equilibração das Estruturas Cognitivas [PIA 76], na qual Piaget procura apresentar o processo de aquisição de novos conhecimentos como um processo de equilibração cognitiva que, de certa forma, obriga os seres vivos a assimilar as informações vindas do mundo externo acomodando-as em estruturas mentais que são forjadas justamente para refletir este mundo.

O processo de equilibração pode ser visto como um processo fisicamente necessário. É, por exemplo, a equilibração que faz com que os rios corram e despenquem em cachoeiras. Embora isto não possa ser claramente percebido quando simplesmente se está observando um rio e suas corredeiras, pode ser imaginado quando se pensa no planeta como um sistema que tende a entrar em equilíbrio físico. A gravidade força a Terra a se transformar em uma esfera perfeita. Se uma determinada quantidade de água está mais longe do centro da Terra do que outra quantidade de água e as duas se comunicam, então a necessidade do equilíbrio fará com que a água que está mais longe se aproxime do centro. É isto que faz os rios correrem. Porém, outros fatores de equilíbrio aliados ao sistema caótico que é o planeta Terra levam água para pontos mais altos (pela chuva). Esta combinação de fatores faz com que o nível das águas não entre nunca em equilíbrio. O desequilíbrio é permanente, mas mesmo assim é uma necessidade física e continuamente os rios tentam alcançar este estado de equilíbrio embora nunca consigam. Este processo de equilibração e desequilibração contínua é que faz o planeta viver.

A mesma idéia pode ser aplicada a sistemas cognitivos. Há uma necessidade cognitiva de equilíbrio nos seres vivos, pois deste equilíbrio depende a sobrevivência deles. Assim, quanto mais um agente conhece seu meio ambiente, maiores são suas chances em relação a outros agentes menos informados (isto também é verdade no mercado financeiro). O equilíbrio consiste em saber exatamente o que fazer em cada situação, otimizando a ação no mundo. Evidentemente, isto depende de conhecer o mundo e saber como ele se comportará a cada ação efetuada. Assim, o agente tem que ser capaz de poder prever o resultado de suas ações antes de executá-las. Quando as previsões dão certo, o agente está em equilíbrio: ele conhece seu meio ambiente. Mas algumas vezes as previsões não dão certo e o agente se vê em uma situação de desequilíbrio.

Este desequilíbrio também é inerente aos sistemas cognitivos, pois são muito complexos. Sistemas simples até podem entrar em equilíbrio estático. Mas isto é bem mais difícil quando se trata de sistemas complexos.

O processo de construção de conhecimento ocorre quando o agente age no sentido de alterar suas próprias estruturas cognitivas para acomodar os desequilíbrios e chegar, assim, a uma nova situação de equilíbrio, que será majorada.

Não parece plausível tentar implementar em agentes computacionais a mesma estrutura cognitiva dos agentes humanos, já que ambos tem fisiologia muito diferente. Porém, alguns aspectos descobertos a respeito da forma como os seres humanos constróem conhecimento parecem ser de grande ajuda à implementação de agentes computacionais. O objetivo deste estudo é esclarecer alguns pontos na inteligência humana que podem ajudar a elucidar alguns aspectos da teoria da inteligência artificial.

Piaget começa seu livro "A Equilibração das Estruturas Cognitivas" [PIA 76] fazendo uma comparação entre as formas de equilíbrio da física, da biologia e dos sistemas cognitivos. Os equilíbrios cognitivos são bastante diferentes dos equilíbrios da física, os quais se conservam sem modificações salvo sob a ação de um agente perturbador externo. Mesmo assim, no caso de uma perturbação, o equilíbrio físico apenas volta ao estado de equilíbrio anterior. Já no caso dos sistemas cognitivos as reequilibrações podem levar a estados de equilíbrio que pode ser considerados como estados de melhor qualidade que o anterior.

Um caso de equilíbrio físico característico é o do equilíbrio termodinâmico, o qual faz com que dois objetos com temperaturas diferentes, estando em contato, acabem ficando com a mesma temperatura. Os equilíbrios termodinâmicos consistem portanto em estados de repouso, que se originam após a destruição de todas as estruturas, sendo pois estacionários (ver, por exemplo, a "morte pelo calor" em [ASI 79]).

Por outro lado, os equilíbrios cognitivos se caracterizam pela manutenção de uma ordem estrutural e funcional em um sistema aberto. Ao contrário dos equilíbrios físicos, o equilíbrio cognitivo busca sempre estados mais complexos nos quais a interação pode ser mais rica, realizando, então uma criação de estruturas ao invés de sua destruição. Embora possa parecer paradoxal, esta constatação é verdadeira considerando-se que as formas de equilíbrio cognitivo são muito mais abstratas do que as formas físicas. A seguir são apresentados os princípios básicos do mecanismo que engendra estas equilibrações: o mecanismo de esquema.


Adaptação livre do site: www.nngroup.com
realizada por Renate de Oliveira